Lusa Musa por Guru

A Musa está a crescer. O projecto que começou apenas pela ideia de lançar um livro de design gráfico português já fez história, inscrevendo o seu nome na lista dos vencedores do 7º Festival do CCP. Quatro prémios – 1 ouro, 3 prata – e duas menções Shortlist assinalam o primeiro reconhecimento dos pares pela qualidade criativa das peças a concurso. Mas os prémios são apenas um momento de glória efémera, recompensa social e psicológica para horas de trabalho de grupo que nascem de anos de aperfeiçoada vocação individual. Nem sequer os prémios contemplam as dimensões onde a actividade da Musa é mais relevante, pois não existem as categorias “Promoção do design português em Portugal”, “Montra de criadores” ou “Internacionalização do talento nacional”, entre outras possíveis. É uma ambição assim desmesurada, totalmente atípica para os hábitos cá do burgo, que enche a alma da Musa.

De 2003 para 2005, deram-se sucessivos saltos na consolidação do projecto, levando a uma alteração de registo: uma surpreendente crisálida baptizada “musabook” metamorfoseou-se na colorida borboleta conhecida como “musacollective”, correspondendo a um novo estatuto face ao desenho original. O projecto editorial permanece como um dos objectivos maiores, estando terminada a fase da recolha de trabalhos e selecção de autores. Complexo tem sido o processo de encontrar uma editora que garanta a alta qualidade de produção e respectiva distribuição internacional tão desejadas, esperando-se boas notícias a curto prazo. O belo é difícil, como ensinam os Gregos, e quando está em causa a preparação de um acontecimento nunca antes visto na biografia do design gráfico português vale bem a pena o sofrimento da espera.

Entretanto, a Musa deu que falar, ver e tocar. Entrevistas aqui e ali, destaque televisivo e o lançamento do MusaTour 2004 – nos espaços Fábrica Features Benetton, em Lisboa, e Galeria IN-Transit, no Porto – onde se exibiram telas de 15 designers elencados no MusaBook. O MusaTour 2005, em ultimação, irá galgar fronteiras por essa Europa fora, e talvez ainda mais além, entrando num circuito de maior visibilidade mediática. A presença no BAOutlet 2004 comprovou a popularidade do merchandising. Os posters, t-shirts, canecas, pinos e bonecos cativam um nicho de consumidores cada vez mais interessados em fugir dos produtos massificados. Naturalmente (inevitavelmente?), foram surgindo convites para participações diversas, desde colaborações com outros projectos de design, portugueses e estrangeiros, a eventos de divulgação e celebração. Sites, revistas e livros, de Ocidente a Oriente, abrindo-lhe as suas páginas, exposições ao lado de vedetas consagradas da cena internacional, prémios, e sabem qual é a façanha que mais entusiasma a Musa? O lançamento em Londres do 1º Qee português, um boneco de culto da Toy2R cujas colecções nascem da colaboração voluntária de artistas, designers e agências de design de todo o mundo. Eram mais de 1000 as propostas a concurso no “UK 2004 Design A Qee Competition”, para uma selecção final de 20, e o lusitano Qee “Happy” foi um dos raros felizardos. Quem não compreender a alegria desta vitória não percebe patavina da paixão de um designer.

Quanto às outras musas dentro da Musa, o “screen magazine” NOTHING LASTS FOREVER (http://www.nlfmagazine.com/) – consistindo em exibições temáticas abertas à participação colectiva – vai para a sua sétima edição, enquanto os projectos ELEFANT MOTION, espaço de promoção de trabalhos em Motion Graphics, e RE:TRO, dedicado às marcas e identidade, aguardam apenas pela disponibilidade temporal dos organizadores para finalmente arrancarem em definitivo. O balanço é altamente positivo e a todos os títulos excepcional.

Merece uma particular referência o Musa Worklab, atelier para trabalhos comerciais ou de utilidade pública, onde se aplicam a problemas concretos de comunicação os pressupostos teóricos e estéticos que animam o projecto Musa. Também por aqui – e, num certo sentido, especialmente por aqui – se persegue o objectivo supremo de renovar e elevar a qualidade do design gráfico português, fazendo de cada trabalho uma oportunidade para verter nos públicos decisores e consumidores as descobertas adquiridas em ambiente experimental. É uma outra forma de se ser fiel ao projecto inicial, tanto mais que nasceu por solicitação espontânea de clientes disponíveis para novas linguagens de comunicação. A prática de atelier acarreta uma responsabilidade acrescida e uma exigência absoluta: coerência com o ideal. A evolução do Musa Worklab desperta uma atenta curiosidade.

Ninguém sabe até onde a Musa poderá chegar ou o que poderá vir a ser, a começar pelos próprios que a criaram e lhe dão vida. Para já, uma lição é de mínima justiça retirar: em Portugal há uma geração de talentos criativos variados que não se reconhecem no lúgubre e cínico mundo das empresas de comunicação obcecadas com os números, mesmo que lá estejam como assalariados. É sangue novo a pedir um coração forte. Essa geração designa-se por um substantivo oriundo do século XII e cujo destino foi e será sempre o de combater onde só os corajosos podem ter esperança, a vanguarda. Sublime risco.

Inspira-nos, Musa.

 

The Musa (Muse) is growing. The project that began with the single idea of editing a Portuguese graphic design book is already part of history, by having it’s name recognised by the Creative Club of Portugal’s 7th festival. Four awards – 1 gold, 3 silvers and 2 shortlists – give this project the first recognition from it’s peers for the creative quality of the work. But the awards are just a moment of ephemeral glory, a social and psychological reward for the long hours of teamwork that is born from years of perfected individual skills. The awards do not even regard the most relevant dimensions of Musa’s activity, for there are no such categories as “Portuguese Design Promotion in Portugal”, “Creator’s Window” or “Abroad Recognition of National Talent” among many others possible. It’s a huge ambition, totally uncommon for this country’s habits, that fills Musa’s soul.

From 2003 to 2005, there were several jumps in the project’s development, leading to a structural change: the astonishing cocoon named “Musabook” has turned into a colourful butterfly known as “Musacollective”, correspondent to a new status facing the original purpose. The editorial project remains as one of the most important goals, for the time of work gathering and author selection is already finished. It has been a rather complex process finding an editor that guarantees high-quality production and respective international distribution, but in short-term, good news will arrive. As the Greek so well taught us, beauty is hard, and when we face an event that has never been seen before in Portuguese’s Graphic Design history, it’s worth waiting for.

In the meantime, “Musa” has given much to speak, see and touch about. Interviews here and there, massive media attention and the launch of “MusaTour 2004” – in Fábrica Features Benetton in Lisbon and in In-Transit Gallery in Porto - where 15 designer’s catalogued in Musabook canvas were shown. Ultimately, MusaTour pretends to jump borders and spread all over Europe or even beyond, getting even more media attention. The presence in BAOutlet 2004 has proved the popularity of merchandising. Posters, t-shirts, cups, pins and toy figures have reached a public more and more interested in escaping massive products. Naturally (inevitably?) invitations for different events came along, from cooperation with other design projects, both national and international ones, to exhibitions and celebration happenings. From East to West, different sites, books and magazines opened their pages for Musa, have shown it side by side with internationally known and renamed artists and awards… and you know what thrills Musa most? The London launch of the first Portuguese Qee, a cult figure toy from Toy2R, whose collections are born from the free cooperation between artists, designers and design agencies from all around the world. There were over 1000 proposals competing in “UK 2004 Design a Qee Competition”, reduced to a final 20 works shortlist and the Portuguese “Happy” Qee was one of the lucky chosen. The ones who don’t understand the joy this victory brings, don’t know a thing about a designer’s passion.

As for the other muses inside Musa, the screen magazine “Nothing Lasts Forever” (http://www.nlfmagazine.com) - which consists in theme exhibitions opened to collective participation - heads towards it’s 7th edition, while both projects “Elefant Motion”, a space that promotes all the work done in Motion Graphics, and “Re:tro”, dedicated to brands and identity, are waiting for organisers time availability to finally take off. The final result is highly positive and, in every aspect, exceptional.

Also a special reference to Musa Worklab, a place for mainstream or public utility work, where the theoretical and esthetical Musa purposes are applied in specific communicational problems. Also here – in a way, especially here – the main goal is to renew and raise the quality of Portuguese graphic design, turning each job in an opportunity to introduce main consumers to new experimental discoveries. It’s another way to be faithful to the initial project, especially because it all began with clients opened to new communicational languages requests. This kind of work brings a bigger responsibility and an unquestionable demand along: to be coherent towards the ideal. Musa’s Worklab evolution is closely and attentively followed.

No one knows where Musa can reach or what it might become, starting with it’s founders and collaborators. For now, there is one lesson to learn: there is a generation of creative talents in Portugal, who do not fit nor recognise in the mournful and cynical world of communication companies that are afraid of numbers; a generation that is willing to immolate the financial security’s numbness to quest for true and scary creative freedom. It is new blood asking for a strong heart. This generation answers by a name with origins in the XII century and whose final destination is to fight where only the brave may have hope, the vanguard. How sublime it is, to be in the front row.

Inspire us, Musa.